No dia 23 de fevereiro de 2008, às oito horas da manhã teve iniciou a nossa primeira viagem com destino à comunidade quilombola Cafundó. Em pouco mais de hora de viagem pela rodovia Castelo Branco, nos deslocamos da capital paulista e chegamos à cidade de Sorocaba, que era nosso primeiro ponto de referência. De lá, sabíamos que tínhamos que ir até a cidade de Salto de Pirapora e depois à sua zona rural onde se encontra a comunidade. Resolvido o impecilho que nos confundia quando pedíamos informação: duas cidades próximas a Sorocaba com os nomes BEM parecidos - Salto e Salto de Pirapora - seguimos viagem e depois de mais alguns poucos quilômetros e chegamos a Salto de Pirapora. De lá, as informações sobre Cafundó eram mais precisas, continuamos pela rodovia e pegamos uma saída à direita. A estrada comecava asfaltada, mais alguns quilômetros depois (sabem bem ao certo a distância) o chão era de terra e cascalho. Quando vimos a primeira placa que tinha escrito 'Cafundó' nos alegramos de estar no caminho certo, agora com certeza disso. Seguimos até chegarmos num lugar que parecia uma cidadezinha (um vilarejo, melhor dizendo) abandonada, pois não parecia haver ninguém por ali. Algumas armações de madeira me lembraram as festas católicas que eu vi muito na fazenda em que nasci. Disse: "Aquilo é para festa de santo, é só cobrir as armações de madeira com lona que é feito um barracão". Continuamos um pouco por não ver ninguém até nos depararmos com uma construção muito bem feita, que em nada perdia das sedes urbanas, da "Congregação Cristã do Brasil". A imagem contrastava tanto com as primeiras que nos remetiam à religião católica quanto com as casas de tijolos e sem nenhum acabamento. Passou então um menino de bicicleta. Foi nossa primeira fonte quilombola. Ele contou à Juliana que aquilo que nos parecia casas abandonadas e astes de barracões para festa de santo era o centrinho e que já estávamos em Cafundó, cujo 'líder' era o Seu Marcos, casado com Dona Regina, que moravam ali mesmo na primeira casa que avistamos. Voltamos até lá e perguntamos por eles, quem primeiro falou conosco foi Dona Regina que foi logo nos mostrar o artesanato e falar da cultura do 'seu' povo. Ao lado da casa do casal, tinha uma construção de 'pau a pique' que relembrava como era Cafundó há algum tempo atrás. Dentro além do artesanato produzido pelos próprios moradores (pulseiras, colares, esteiras, bolsas) pudemos ver um quadro de fotos que, entre outras, tinha uma capa da Revista Veja que falava sobre a comunidade. Conversa vai, conversa vem. Dona Regina, que nasceu em São Paulo e morava em Campinas quando conheceu o marido quilombola, soube vender bem o seu 'peixe'. Respondeu atenciosamente às nossas perguntas, deixou que tirássemos algumas fotos e nos contou que, como eu pensava, aquela armação era mesmo para festa católica. Eles fazem festa em homenagem à Santa Cruz, São Benedito e Nossa Senhora Aparecida durante o mês de maio. Quando falamos que tínhamos um projeto de conclusão de curso, um trabalho acadêmico, no qual pretendíamos traçar um perfil da comunidade em que ela vivia, veio a primeira surpresa> tudo tem um preço! Teríamos que falar a respeito do assunto com seu Marcos, presidente da Associação dos Moradores, para conseguirmos autorização para entrevistar, fotografar e filmar, e essa empreitada teria um custo para nós o qual deveria ser visto diretamente com o marido. Nessa hora, reaparece o Seu Marcos, que tinha aparecido no começo somente por tempo suficiente para dizer: "podem ver o artesanato (que é vendido por eles) sem nenhum compromisso, que eu tenho algumas coisas pra fazer e já volto" (essa era a deixa para Dona Regina entrar e nos 'apresentar' a Cafundó). Voltou e nos fez saber que além de mandar o projeto por escrito para Dona Regina, como ela já havia dito, teríamos que dar uma 'contribuição' de trezentos reais para a 'comunidade' representada por ele mesmo. Depois de eliminadas nossas tentativas de parcelar o pagamento ou mesmo pagar uma parte em alimentos, aceitamos (por falta de opção) a proposta de Seu Marcos e concordamos em trazer o dinheiro na próxima visita.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
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